sexta-feira, agosto 25, 2006

"Tradutorês"

Alguns dos vossos comentários à parte 1 do "post" "As minhas (des)aventuras pela língua alemã" foram viscerais !

Este "post" é especialmente dirigido à Cristina.

O primeiro movimento em direcção ao texto a traduzir deverá ser, em primeira instância, o do reconhecimento do terreno linguístico-gramatical, cultural e literário, da sua topografia própria e dos obstáculos que oferece. Este reconhecimento - que, a não ser feito, implica riscos de vária ordem; quedas, tropeções, desvios, desvirtuamentos na reconstituição - pressupõe, por sua vez, vários níveis de competência translatória. Na minha opinião, o bom tradutor deverá possuir uma série de competências "core", que passo a descrever : competência linguística ( o domínio das duas línguas ), competência especializada ( conhecimento das matérias de que o texto se ocupa ), competência cultural ( capacidade de reconhecer referências de ordem cultural no texto de partida, e de as resolver satisfatoriamente na língua de chegada ), competência de "transferência" propriamente dita ( preparação no âmbito de uma prática de tradução linguística com as suas regras e exigências próprias ).

Os pressupostos fundamentais da tradução entendem-se em íntima dependência destas várias competências. A "tradução" que foge as estes ditames, arrisca-se a ser classificada de "tradutorês". Temos em Português, infelizmente, vários exemplos. Vejam-se algumas traduções que foram feitas para português do Henning Mankell. Tenho pena de não saber dominar a língua sueca, pois existem algumas evidências ( comparação das edições em português, inglês e alemão do livro "Mördare utan ansikte" - "Mörder ohne Gesicht" em alemão, "Faceless Killers" em inglês e "Assassinos sem Rosto" em português ) de que as traduções deste autor sueco para português ( penso que todas na mesma editora ) deixam muito a desejar. Aliás dadas as similitudes da edição portuguesa com a edição inglesa, estou desconfiado que a tradução foi feita a partir do texto inglês ...

Não há tradução que resista ! A questão fundamental quanto a mim reside em saber quantas pessoas estão preocupadas com as traduções das traduções ??? Com o "boom" da literatura escandinava ( e.g, Karin Fossum, Leena Lehtolainen, Arnaldur Indridason, Gunnar Staalesen, Hakan Nesser, etc ) e afins, este tipo de fénomeno cada vez tem maior incidência ( não só em português ! ). Nota-se uma maior ênfase na tradução dos conteúdos e não na literariedade dos textos ( entendo por "literariedade" todo o sub-texto, ou seja, os seus "invisíveis" : ritmos, alusões, denotações, etc, em oposição a uma tradução que incide meramente na superfície do texto )! Este problema agudiza-se de forma natural quando estamos em presença de "traduções de traduções".

Estamos hoje em dia verdadeiramente no reino do "tradutorês" ...

Aguardo os vossos exemplos de "tradutorês" ( BTW, conhecem alguma sueca que possa ajudar ...? )

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