domingo, maio 05, 2013

Não há bons nem maus livros...



Publicado no Goodreads na thread (message 100):


"Tenho acompanhado com interesse esta questão do que deve ser (ou não) um "bom" livro.

Não há bons nem maus livros. Toda a energia que se dedica a classificar bons e maus livros é um desperdício.

A questão fundamental é outra. Penso que a Jane Austen é melhor que a EL James, mas isso é apenas porque para mim consegue fazer de um livro algo mais do que a EL James, mas isso não faz com que os livros da Jane Austen sejam objectivamente melhores; são apenas melhores para mim! 

Existe um conjunto de regras que as pessoas que têm formação na área da Literatura, consideram como cruciais para que se considere um livro como "bom", mas essas regras não implicam algo de intrinsecamente objectivo no que toca à avaliação da qualidade de um livro. Como não podia deixar de ser estamos no campo da subjectividade...


Os atributos que de forma consensual tornam um livro "bom" são sobejamente familiares (mesmo que não o digamos em voz alta lol): personagens tridimensionais, psicologia realista, domínio técnico na arte de bem contar uma estória,  relevância social, etc.

Para além destes "requisitos", existem outros, quiçá, tão ou mais importantes que os que referi acima e a maior parte deles não são sancionados pelo establishment crítico português: escapismo, conforto, tintilação, excitação, o exótico, educação, humor, acção e muitos mais.

A que nos leva este tipo de discussão? Para os leitores com uma sensibilidade literária "mais" apurada, "Pride and Prejudice" é "melhor" que "Fifty Shades of Grey", mas não realidade isso não é verdade. Significa apenas que a Jane Austen nos faz mais "cócegas" do que o livro da EL James, ie, o facto de gostarmos mais de um livro da Jane Austen do que de um livro do EL James diz-nos mais acerca de nós próprios do que sobre o livro propriamente dito.

Se aceitarmos a premissa de que a discussão de um livro é antes de mais uma discussão sobre os gostos de leitura de cada um de nós, estaremos mais perto do cerne da questão, ou seja, quando duas pessoas esgrimem livros, estão de facto a discutir sobre gostos literários pessoais (quem "somos" de facto em termos de gostos literários) e não sobre a qualidade dos livros em questão...



Mais importante ainda, ao admitirmos que não existe um padrão para "medir" a qualidade de um livro, estamos a abrir um mundo de possibilidades de leitura. Qualquer tipo de frustração na escolha de um livro em função da sua pretensa qualidade, deixa de fazer  sentido. A "obrigação" de lermos apenas aquilo que é considerado como Grande Literatura é substituído pelo gozo de sermos um bom leitor, ie, alguém que lê de forma variada e com grande prazer, leve isso onde nos levar.

Perdoem-me a diatribe."

Pick up a book and get lost in it...

3 comentários:

Sandra disse...

Concordo. Não há boa arte e má arte...
Beijinho

Unknown disse...

Ai, ai. O que me ocorre perguntar é se tu leste a EL James.
Eu concordo a 100%, porque partindo do princípio que estamos a referir-nos a algo «bem» escrito, o que eu procuro é ser entretida, eu gosto que me contem uma estória que «mexa» comigo, não quero ficar incólume.
Beijo grande,
Ana

Anónimo disse...

Nunca tinha visto o tema desta forma. Sempre fui de opinião de que existe um Céu de livros perfeitos e um Inferno de livros horríveis!

Mas agora que colocas as coisas nestes termos, tendo a concordar contigo.

"Bons" e "maus" livro são sempre filtrados pelos nossos olhos, necessariamente.

Pedro